Martinho Lutero
nasceu em 10 de novembro de 1483 em Eisleben, e morreu também em Eisleben no dia
18 de fevereiro de 1546 com teve um ataque do coração.
Ele foi um monge agostiniano alemão, teólogo, professor universitário,
"Pai do Protestantismo", e reformista da Igreja Católica, cujas
ideias influenciaram a Reforma Protestante e mudaram o curso da Civilização
ocidental.
PRIMEIROS ANOS DE VIDA
Martinho Lutero,
cujo nome em alemão era Martin Luther ou Luder, era filho de Hans Luther e
Margarethe Lindemann. Mudou-se para Mansfeld, onde seu pai dirigia várias minas
de cobre. Tendo sido criado no campo, Hans Luther desejava que seu filho viesse
a se tornar um funcionário público; melhorando, assim, as condições da família.
Com esse objetivo, enviou o jovem Martinho para escolas em Mansfeld, Magdeburgo
e Eisenach.
Aos dezessete
anos, em 1501, Lutero ingressou na Universidade de Erfurt, onde tocava alaúde e
recebeu o apelido de "O filósofo". O jovem estudante graduou-se
bacharel em 1502 e concluiu o mestrado em 1505, sendo o segundo entre dezessete
candidatos. Seguindo os desejos paternos, inscreveu-se na escola de Direito da
mesma Universidade. Mas tudo mudou após uma grande tempestade com descargas
elétricas, ocorrida naquele mesmo ano (1505): um raio caiu próximo de onde ele
estava passando, ao voltar de uma visita à casa dos pais. Aterrorizado, gritou
então: "Ajuda-me, Sant'Ana! Eu me tornarei um monge!"
Tendo
sobrevivido aos raios, deixou a faculdade, vendeu todos os seus livros, com
exceção dos de Virgílio, e entrou para a ordem dos Agostinianos, de Erfurt, a
17 de julho de 1505.
VIDA MONÁSTICA E ACADÊMICA
O jovem Martinho
Lutero dedicou-se por completo à vida no mosteiro, empenhando-se em realizar
boas obras a fim de agradar a Deus e servir ao próximo através de orações por
suas almas. Dedicou-se intensamente à meditação, às autoflagelações, às muitas
horas de oração diárias, às peregrinações e à confissão. Quanto mais tentava
ser agradável ao Senhor, mais se dava conta de seus pecados.
Johann von
Staupitz, o superior de Lutero, concluiu que o jovem necessitava de mais trabalhos,
para afastar-se de sua excessiva reflexão. Ordenou, portanto, ao monge que
iniciasse uma carreira acadêmica. Em 1507, Lutero foi ordenado sacerdote. Em
1508, começou a lecionar Teologia na Universidade de Wittenberg. Lutero recebeu
seu bacharelado em Estudos bíblicos a 19 de março de 1508. Dois anos depois,
visitou Roma, de onde regressou bastante decepcionado.
Em 19 de outubro
de 1512, Martinho Lutero graduou-se Doutor em Teologia e, em 21 de outubro do
mesmo ano, foi "recebido no Senado da Faculdade Teológica" com o
título de "Doutor em Bíblia". Em 1515, foi nomeado vigário de sua
ordem tendo sob sua autoridade onze monastérios.
Durante esse
período, estudou grego e hebraico, para aprofundar-se no significado e origem
das palavras utilizadas nas Escrituras - conhecimentos que logo utilizaria para
a sua própria tradução da Bíblia.
A TEOLOGIA DA GRAÇA DE LUTERO
O desejo de
obter títulos acadêmicos levaram Lutero a estudar as Escrituras em
profundidade. Influenciado por sua formação humanista a buscar "ad
fontes" (nas fontes), mergulhou nos estudos sobre a Igreja Primitiva.
Devido a isso, termos como "penitência" e "honestidade"
ganharam novo significado para ele.
Já convencido de
que a Igreja havia distorcido sua visão acerca de várias das verdades do
Cristianismo ensinadas nas Escrituras - sendo a mais importante delas a
doutrina da chamada "Justificação" apenas pela fé; ele começou a
ensinar que a Salvação era um benefício concedido apenas por Deus, dado pela
Graça divina através de Jesus Cristo e recebido apenas por meio da fé.
Mais tarde,
Lutero definiu e reintroduziu o princípio da distinção própria entre a Torá
(Pentateuco, ou Lei Mosaica) e os Evangelhos, que reforçavam sua teologia da
graça. Em conseqüência, Lutero acreditava que seu princípio de interpretação
era um ponto inicial essencial para o estudo das Escrituras. Notou, ainda, que
a falta de clareza na distinção da Lei e dos Evangelhos, era a causa da
incorreta compreensão dos Evangelhos de Jesus pela Igreja de seu tempo,
instituição a quem responsabilizava pela criação e fomento de muitos erros
acerca de princípios teológicos fundamentais.
A CONTROVÉRSIA ACERCA DAS INDULGÊNCIAS
Além de suas
atividades como professor, Martinho Lutero ainda colaborava como pregador e
confessor na igreja de Santa Maria, na cidade. Também pregava habitualmente na
igreja do Castelo (chamada de "Todos os Santos" - porque ali havia
uma coleção de relíquias, estabelecidas por Frederico II de Sabóia). Foi
durante esse período que o jovem sacerdote se deu conta dos problemas que o
oferecimento de indulgências aos fiéis, como se esses fossem fregueses,
poderiam acarretar.
A indulgência é
a remissão (parcial ou total) do castigo temporal imputado a alguém por conta
dos seus pecados. Naquele tempo qualquer pessoa poderia comprar uma
indulgência, quer para si mesmo, quer para um parente já morto que estivesse no
Purgatório. O frade Johann Tetzel fora recrutado para viajar através dos
territórios episcopais do arcebispo Alberto de Mogúncia, promovendo e vendendo
indulgências com o objetivo de financiar as reformas da Basílica de São Pedro,
em Roma.
Lutero viu este
tráfico de indulgências como um abuso que poderia confundir as pessoas e
levá-las a confiar apenas nas indulgências, deixando de lado a confissão e o
arrependimento verdadeiros. Proferiu, então, três sermões contra as
indulgências em 1516 e 1517. Segundo a tradição, a 31 de outubro de 1517 foram
pregadas as 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, com um
convite aberto ao debate sobre elas. Essas teses condenavam, o que Lutero
acreditava ser a avareza e o paganismo na Igreja como um abuso, e pediam um
debate teológico sobre o que as Indulgências significavam. Para todos os
efeitos, contudo, nelas Lutero não questionava diretamente a autoridade do Papa
para conceder as tais indulgências.
As 95 Teses
foram logo traduzidas para o alemão e amplamente copiadas e impressas. Ao cabo
de duas semanas se haviam espalhado por toda a Alemanha e, em dois meses, por
toda a Europa. Este foi o primeiro episódio da História em que a imprensa teve
papel fundamental, pois facilita a distribuição simples e ampla de qualquer
documento.
A RESPOSTA DO PAPADO
Depois de fazer
pouco caso de Lutero, dizendo que ele seria um "alemão bêbado que
escrevera as teses", e afirmando que "quando estiver sóbrio mudará de
opinião" o Papa Leão X ordenou, em 1518, ao professor de teologia
dominicano Silvestro Mazzolini que investigasse o assunto. Este denunciou que
Lutero se opunha de maneira implícita à autoridade do Sumo Pontífice, quando
discordava de uma de suas bulas. Declarou ser Lutero um herege e escreveu uma
refutação acadêmica às suas teses. Nela, mantinha a autoridade papal sobre a
Igreja e condenava as teorias de Lutero como um desvio e uma apostasia.
Lutero replicou
de igual forma (academicamente), dando assim início à controvérsia. Enquanto
isso, Lutero tomava parte da convenção dos agostinianos em Heidelberg, onde
apresentou uma tese sobre a escravidão do homem ao pecado e a graça divina. No
decorrer da controvérsia sobre as indulgências, o debate se elevou até ao ponto
de duvidar do poder absoluto e autoridade do Papa, pois as doutrinas de
"Tesouraria da Igreja" e "Tesouraria dos Merecimentos", que
serviam para reforçar a doutrina e venda e das indulgências, haviam se baseado
na bula papal "Unigenitus", de 1343, do Papa Clemente VI. Por causa
de sua oposição a esta doutrina, Lutero foi qualificado como heresiarca e o
Papa, decidido a suprimir por completo os seus pontos de vista, ordenou que ele
fosse chamado a Roma, viagem que deixou de ser realizada por motivos políticos.
Lutero, que anteriormente professava a obediência implícita à Igreja, negava agora abertamente a autoridade papal e apelava para que fosse realizado um Concílio. Também declarava que o papado não formava parte da essência imutável da Igreja original.
Desejando manter
relações amistosas com o protetor de Lutero, Frederico, o Sábio, o Papa
engendrou uma tentativa final de alcançar uma solução pacífica para o conflito.
Uma conferência com o representante papal Karl von Miltitz em Altenburg, em
janeiro de 1519, levou Lutero a decidir guardar silêncio, tal qual seus
opositores. Também escreveu uma humilde carta ao Papa e compôs um tratado
demonstrando suas opiniões sobre a Igreja Católica. A carta nunca chegou a ser
enviada, pois não continha nenhuma retratação; e no tratado que compôs mais
tarde, negou qualquer efeito das indulgências no Purgatório.
Quando Johann
Eck desafiou um colega de Lutero, Andreas Carlstadt, para um debate em Leipzig,
Lutero juntou-se à discussão (27 de junho-18 de julho de 1519), no curso do
qual negou o direito divino do solidéu papal e da autoridade de possuir o as
chaves do Céu que, segundo ele, haviam sido outorgadas apenas ao próprio
Apóstolo Pedro, não passando para seus sucessores. Negou que a salvação
pertencesse à Igreja Católica ocidental sob a autoridade do Papa, mas que esta
se mantinha na Igreja Ortodoxa, do Oriente. Depois do debate, Eck afirmou que
forçara Lutero a admitir a semelhança de sua própria doutrina com a de João
Huss, que havia sido queimado na fogueira da Inquisição.
AUMENTA A CISÃO
Lutero durante os acontecimentos
Não parecia
haver esperanças de entendimento. Os escritos de Lutero circulavam amplamente,
alcançando França, Inglaterra e Itália, em 1519, e os estudantes dirigiam-se a
Wittenberg para escutar Lutero que, naquele momento, publicava seus comentários
sobre a Epístola aos Gálatas e suas "Operationes in Psalmos"
(Trabalho nos Salmos).
As controvérsias
geradas por seus escritos levaram Lutero a desenvolver suas doutrinas mais a
fundo, e o seu "Sermão sobre o Sacramento Abençoado do Verdadeiro e Santo
Corpo de Cristo, e suas Irmandades", ampliou o significado da Eucaristia
para incluir também o perdão dos pecados e ao fortalecimento da fé naqueles que
a recebem. Além disso, ele ainda apoiava a realização de um concílio a fim de
restituir a comunhão.
O conceito
luterano de "igreja" foi desenvolvido em seu "Von dem Papsttum
zu Rom" (Sobre o Papado de Roma), uma resposta ao ataque do franciscano
Augustin von Alveld, em Leipzig (junho de 1520). Enquanto o seu "Sermon
von guten Werken" (Sermão das Boas Obras), publicado na primavera de 1520,
era contrário à doutrina católica das boas obras e dos atos como meio de
perdão, mantendo que as obras do crente são verdadeiramente boas, quer para o
secular como para o clérigo, se ordenadas por Deus.
Os tratados de 1520
A NOBREZA ALEMÃ
A disputa havida
em Leipzig, em 1519, fez com que Lutero travasse contato com os humanistas,
especialmente Melanchthon, Reuchlin e Erasmo de Roterdã, que por sua vez também
influenciara ao nobre Franz von Sickingen. Von Sickingen e Silvestre de
Schauenbur queriam manter Lutero sob sua proteção, convidando-o para seus
castelos na eventualidade de não ser-lhe seguro permanecer na Saxônia, em
virtude da proscrição papal.
Sob essas
circunstâncias de crise, e confrontando aos nobres alemães, Lutero escreveu
"À Nobreza Cristã da Nação Alemã" (agosto de 1520), onde recomendava
ao laicado, como um sacerdote espiritual, que fizesse a reforma requerida por
Deus, mas abandonada pelo Papa e pelo clero. Pela primeira vez Lutero
referiu-se ao Papa como o Anticristo.
As reformas que
Lutero propunha não se referiam apenas a questões doutrinárias, mas também aos
abusos eclesiásticos:
Ø A
diminuição do número de cardeais e outras exigências da corte papal;
Ø A
abolição das rendas do Papa;
Ø O
reconhecimento do governo secular;
Ø A
renúncia da exigência papal pelo poder temporal;
Ø A
abolição dos Interditos e abusos relacionados com a excomunhão;
Ø A
abolição das peregrinações nocivas;
Ø A
eliminação dos excessivos dias santos;
Ø A
supressão dos conventos para monjas, da mendicidade e da suntuosidade; a
reforma das universidades;
Ø A
abrogação do celibato do clero;
Ø A
união dos boêmios;
Ø E,
finalmente, uma reforma geral na moralidade pública.
Muitas destas
propostas refletiam os interesses da nobreza alemã, revoltada com sua submissão
ao Papa e, principalmente, com o fato de terem que enviar riquezas a Roma.
O CATIVEIRO BABILÔNICO
Lutero gerou
muitas polêmicas doutrinárias com seu "Prelúdio no Cativeiro Babilônico da
Igreja", em especial no que diz respeito aos sacramentos.
Ø Eucaristia
- apoiava que fosse devolvido o "cálice" ao laicado; na chamada
questão do dogma da transubstanciação, afirmava que era real a presença do
corpo e do sangue do Cristo na eucaristia, mas refutava o ensinamento de que a
eucaristia era o sacrifício oferecido por Deus.
Ø Batismo
- ensinava que trazia a justificação apenas se combinado com a fé salvadora em
o receber; de fato, mantinha o princípio da salvação inclusive para aqueles que
mais tarde se convertessem.
Ø Penitência
- afirmou que sua essência consiste na palavra de promessa de desculpas
recebidas com fé.
Para ele, apenas
estes três sacramentos podiam assim ser considerados, pois sua instituição era
divina e a promessa da salvação de Deus estava conexa a eles. Contudo, em
sentido estrito, apenas o batismo e a eucaristia seriam verdadeiros
sacramentos, pois apenas eles tinham o "sinal visível da instituição
divina": a água no batismo e o pão e vinho da eucaristia. Lutero negou, em
seu documento, que a confirmação (Crisma), o matrimônio, a ordenação sacerdotal
e a extrema-unção fossem sacramentos.
LIBERDADE DE UM CRISTÃO
Da mesma forma,
o completo desenvolvimento da doutrina de Lutero sobre a salvação e a vida
cristã foi exposto em "A Liberdade de um Cristão" (publicado em 20 de
novembro de 1520, onde exigia uma completa união com Cristo mediante a palavra
através da fé, e a inteira liberdade do cristão como sacerdote e rei sobre
todas as coisas exteriores, e um perfeito amor ao próximo).
As duas teses
que Lutero desenvolve nesse tratado são aparentemente contraditórias, mas, em
verdade, são complementares:
Ø "O
cristão é um senhor libérrimo sobre tudo, a ninguém sujeito";
Ø "O
cristão é um servo oficiosíssimo de tudo, a todos sujeito".
A primeira tese
é válida "na fé"; a segunda, "no amor".
A EXCOMUNHÃO
A 15 de junho de
1520, o Papa advertiu Lutero, com a bula "Exsurge Domine", onde o
ameaçava com a excomunhão, a menos que, num prazo de sessenta dias, repudiasse
41 pontos de sua doutrina, destacados pela Igreja.
Em outubro de
1520, Lutero enviou seu escrito "A Liberdade de um Cristão" ao Papa,
acrescentando a frase significativa:
"Eu não me
submeto a leis ao interpretar a palavra de Deus".
Enquanto isso,
um rumor chegara de que Johan Ech saíra de Meissem com uma proibição papal,
enquanto este se pronunciara realmente a 21 de setembro. O último esforço de
paz de Lutero foi seguido, em 12 de dezembro, da queima da bula, que já tinha
expirado há 120 dias, e o decreto papa de Wittenberg, defendendo-se com seus
"Warum des Papstes und seiner Jünger Bücher verbrannt sind" e
"Assertio omnium articulorum". O Papa Leão X excomungou Lutero a 3 de
janeiro de 1521, na bula "Decet Romanum Pontificem".
A execução da
proibição, com efeito, foi evitada pela relação do Papa com Frederico III da
Saxônia, e pelo novo imperador, Carlos I de Espanha (Carlos V de Habsburgo),
que julgou inoportuno apoiar as medidas contra Lutero, diante de sua posição
face à Dieta.
A
DIETA DE WORMS
O Imperador
Carlos V inaugurou a Dieta real a 22 de janeiro de 1521. Lutero foi chamado a
renunciar ou confirmar seus ditos e foi-lhe outorgado um salvo-conduto para
garantir-lhe o seguro deslocamento.
A 16 de abril,
Lutero apresentou-se diante da Dieta. Johann Eck, assistente do Arcebispo de
Trier, mostrou a Lutero uma mesa cheia de cópias de seus escritos.
Perguntou-lhe, então, se os livros eram seus e se ele acreditava naquilo que as
obras diziam. Lutero pediu um tempo para pensar em sua resposta, o que lhe foi
concedido. Este, então, isolou-se em oração e depois consultou seus aliados e
amigos, apresentando-se à Dieta no dia seguinte. Quando a Dieta veio a tratar
do assunto, o conselheiro Eck pediu a Lutero que respondesse explicitamente à
seguinte questão:
"Lutero,
repeles seus livros e os erros que eles contêm?"
Lutero, então,
respondeu:
"Que se me
convençam mediante testemunho das Escrituras e claros argumentos da razão -
porque não acredito nem no Papa nem nos concílios já que está provado amiúde
que estão errados, contradizendo-se a si mesmos - pelos textos da Sagrada
Escritura que citei, estou submetido a minha consciência e unido à palavra de
Deus. Por isto, não posso nem quero retratar-me de nada, porque fazer algo
contra a consciência não é seguro nem saudável."
De acordo com a
tradição, Lutero, então, proferiu as seguintes palavras:
"Não posso
fazer outra coisa, esta é a minha posição. Que Deus me ajude!
Nos dias
seguintes, seguiram-se muitas conferências privadas para determinar qual o
destino de Lutero. Antes que a decisão fosse tomada, Lutero abandonou Worms.
Durante seu regresso a Wittenberg, desapareceu.
O Imperador
redigiu o Édito de Worms a 25 de maio de 1521, declarando Martinho Lutero
fugitivo e herege, e proscrevendo suas obras.
PROCESSO ROMANO
Em Junho de
1518, foi aberto o processo contra Lutero, com base na publicação das suas 95
Teses. Alegava-se, com o exame do processo, que ele incorria em heresia. Nas
aulas que ministrava na Universidade de Wittenberg, espiões registravam seus
comentários negativos sobre a excomunhão. Depois disso, em agosto de 1518, o
processo foi alterado para heresia notória. Lutero foi convidado a ir a Roma,
onde teria que desmentir sua doutrina.
Lutero
recusou-se a fazê-lo, alegando razões de saúde; e pretendeu uma audiência em
território alemão. O seu pedido baseava-se no argumento (Gravamina) da Nação
Alemã. Seu pedido foi aceito, ele foi convidado para uma audiência com o
cardeal Caetano de Vio (Tomás Caetano), durante a reunião das cortes (Reichstag)
imperiais de Augsburg. Entre 12 e 14 de outubro de 1518, Lutero falou a
Caetano. Este pediu-lhe que revogasse sua doutrina. Lutero recusou-se a
fazê-lo.
Do lado romano,
o caso pareceu terminado. Por causa da morte de Imperador Maximiliano I (Janeiro
de 1519), houve uma pausa de dois anos no andamento do processo. O Imperador
tinha decidido que o seu sucessor seria Carlos (futuro Carlos V). Por causa das
pertenças de Carlos em Itália, o papa renascentista Leão X receava o cerco do
Estado da Igreja e procurava evitar que os príncipes-eleitores alemães
(Kurfürsten) renunciassem a Carlos.
O papel de
protetor de Lutero assumido por Frederico, o sábio, levou a que Roma pedisse
que Karl von Miltiz intercedesse junto ao príncipe por uma solução razoável.
Após a escolha de Carlos V como imperador (26 de junho de 1519), o processo de
Lutero voltaria a ser alvo de preocupações e trabalhos.
Em junho de
1520, reapareceu a ameaça no escrito "Exsurge Domini" e, em janeiro
de 1521, a bula "Decet Romanum Pontificem" excomungou Lutero.
Seguiu-se, então, a ameaça oficial do imperador (Reichsacht).
Notável é, no
entanto, que Lutero foi, mais uma vez, recebido em audiência, o que também
deixou claras as diferenças entre o papado e o império. Carlos foi o último rei
(após uma reconciliação) a ser coroado imperador pelo papa. Nos dias 17 e 18 de
Abril de 1521 Lutero foi ouvido na Dieta de Worms (conferência governativa) e,
após ter negado a revogação da sua doutrina, foi publicado o Édito de Worms,
banindo Lutero.
EXÍLIO NO CASTELO DE WARTBURG
O seqüestro de
Lutero durante a sua viagem de regresso da Dieta de Worms foi arranjado.
Frederico, o sábio ordenou que Lutero fosse capturado por um grupo de homens
mascarados a cavalo, que o levaram para o Castelo de Wartburg, em Eisenach,
onde ele permaneceu por cerca de um ano. Deixou crescer a barba e tomou as
vestes de um cavaleiro, assumindo o pseudônimo de Jörg. Durante esse período de
retiro forçado, Lutero trabalhou na sua célebre tradução da Bíblia para o
alemão.
Com o início da
estadia de Lutero em Wartburg, começou um período muito construtivo de sua
carreira como reformista. Em seu "Deserto" ou "Patmos"
(como ele mesmo chamava, em suas cartas) de Wartburg, começou a tradução da
Bíblia, da qual foi impresso o Novo Testamento, em setembro de 1522.
Em Wartburg, ele
produziu outros escritos, preparou a primeira parte de seu Guia para Párocos e
"Von der Beichte" (Sobre a Confissão), em que nega a obrigatoriedade
da confissão, e admite como saudável a confissão privada voluntária. Também
escreveu contra o Arcebispo Albrecht, a quem obrigou, com isso, a desistir de
retomar a venda das indulgências. Em seus ataques a Jacobus Latomus, avançou em
sua visão sobre a relação entre a graça e a lei, assim como sobre a natureza
revelada pelo Cristo, distinguindo o objetivo da graça de Deus para o pecador
que, por acreditar, é justificado por Deus devido à justiça de Cristo, pois a
graça salvadora reside dentro do homem pecador. Ainda mostrou que o
"princípio da justificação" é insuficiente, ante a persistência do
pecado depois do batismo - pela inerência do pecado em cada boa obra.
Lutero, amiúde,
escrevia cartas a seus amigos e aliados, respondendo-lhes ou perguntando-lhes
por seus pontos de vista e respondendo-lhes aos pedidos de conselhos. Por
exemplo, Felipe Melanchthon lhe escreveu perguntando como responder à acusação
de que os reformistas renegavam a peregrinação e outras formas tradicionais de
piedade. Lutero respondeu-lhe em 1 de agosto de 1521:
"Se és um
pregador da misericórdia, não pregues uma misericórdia imaginária, mas sim uma
verdadeira. Se a misericórdia é verdadeira, deve penitenciar ao pecado
verdadeiro, não imaginário. Deus não salva apenas aqueles que são pecadores
imaginários. Conheça o pecador, e veja se os seus pecados são fortes, mas
deixai que tua confiança em Cristo seja ainda mais forte, e que se alegre em
Cristo que é o vencedor sobre o pecado, a morte e o mundo. Cometeremos pecados
enquanto estivermos aqui, porque nesta vida não há um só lugar onde resida a
justiça. Nós todos, sem embargo, disse Pedro (2ª Pedro 3:13), estamos buscando
mais além um novo céu e uma nova terra onde a justiça reinará".
Enquanto isso,
alguns sacerdotes saxônicos haviam renunciado ao voto de castidade, ao mesmo
tempo em que outros tantos atacavam os votos monásticos. Lutero, em seu De
votis monasticis (Sobre os votos monásticos), aconselhava-os a ter mais
cautela, aceitando, no fundo, que os votos eram geralmente tomados "com a
intenção da salvação ou à busca de justificação". Com a aprovação de
Lutero em seu "De abroganda missa privata (Sobre a abrogação da missa
privada), mas contra a firme oposição de seu prior, os agostinianos de
Wittenberg realizaram a troca das formas de adoração e terminaram com as
missas. Sua violência e intolerância certamente desagradaram Lutero que, em
princípios de dezembro, passou alguns dias entre eles. Ao retornar para
Wartburg, escreveu "Eine treue Vermahnung … vor Aufruhr und Empörung"
(Uma sincera admoestação por Martinho Lutero a todos os cristãos para que se resguardem
da insurreição e rebelião). Apesar disso, em Wittengerg, Carlstadt e o
ex-agostiniano Gabriel Zwilling reclamavam a abolição da missa privada e da
comunhão em duas espécies, assim como a eliminação das imagens nas igrejas e a
abrogação do celibato.
REGRESSO A WITTENBERG E OS SERMÕES INVOCAVIT
No final do ano
de 1521, os anabatistas de Zwickau se entregam à anarquia. Contrário a tais
concepções radicais e temendo seus resultados, Lutero regressou em segredo a
Wittenberg, em 6 de março de 1522. Durante oito dias, a partir de 9 de março
(domigo de Invocavit) e concluindo no domingo seguinte, Lutero pregou outros
tantos sermões que tornaram-se conhecidos como os "Sermões de
Invocavit".
Nessas
pregações, Lutero aconselhou uma reforma cuidadosa, que leve em consideração a
consciência daqueles que ainda não estivessem persuadidos a acolher a Reforma.
A consagração do pão foi restaurada por um tempo e o cálice sagrado foi
ministrado somente àqueles do laicado que o desejaram. O cânon das missas,
devido ao seu caráter imolatório, foi suprimido. Devido ao sacramento da
confissão ter sido abolido, verificou-se a necessidade que muitas pessoas ainda
tinham de confessar-se em busca do perdão. Esta nova forma de serviço foi dada
a Lutero em "Formula missæ et communionis" (Fórmula da missa e
Comunhão), de 1523. Em 1524 surgiu o primeiro hinário de Wittenberg, com quatro
hinos.
Como aquela
parte da Saxônia era governada pelo Duque Jorge, que proibira seus escritos,
Lutero declarou que a autoridade civil não podia promulgar leis para a alma.
Fez isso em sua obra: "Über die weltliche Gewalt, wie weit man ihr
Gehorsam schuldig sei" (Autoridade Temporal: em que medida deve ser
obedecida).
MATRIMÔNIO E FAMÍLIA
Em abril de
1523, Lutero ajudou 12 freiras a escaparem do cativeiro no Convento de
Nimbschen. Entre essas freiras encontrava-se Catarina von Bora, filha de nobre
família, com quem veio a se casar, em 13 de junho de 1525. Dessa união nasceram
seis filhos: Johannes, Elisabeth, Magdalena, Martin, Paul e Margaretha.
O casamento de
Lutero com a ex-freira cisterciense incentivou o casamento de outros padres e
freiras que haviam adotado a Reforma. Foi um rompimento definitivo com a Igreja
Romana.
A GUERRA DOS CAMPONESES
A guerra dos
camponeses (1524-1525) foi, de muitas maneiras, uma resposta aos discursos de
Lutero e de outros reformadores. Revoltas de camponeses já tinham existido em
pequena escala em Flandres (1321-1323), na França (1358), na Inglaterra
(1381-1388), durante as guerras hussitas do século XV, e muitas outras até o
século XVIII. Mas muitos camponeses julgaram que os ataques verbais de Lutero à
Igreja e sua hierarquia significavam que os reformadores iriam igualmente
apoiar um ataque armado à hierarquia social. Por causa dos fortes laços entre a
nobreza hereditária e os líderes da Igreja que Lutero condenava, isso não seria
surpreendente.
Já em 1522,
enquanto Lutero estava em Wartburg, seu seguidor Thomas Münzer, comandou massas
camponesas contra a nobreza imperial, pois propunha uma sociedade sem
diferenças entre ricos e pobres e sem propriedade privada, Lutero por sua vez
defendia que a existência de "senhores e servos" era vontade divina,
motivo pelo qual eles romperam. Lutero, desde cedo, argumentou com a nobreza e
os próprios camponeses sobre uma possível revolta e também sobre Müntzer,
classificando-o como um dos "profetas do assassínio" e colocando-o
como um dos mentores do movimento camponês. Lutero escreveu a "Terrível
História e Juízo de Deus sobre Tomas Müntzer", inaugurando essa linha de
pensamento.
Na iminência da
revolta (1524), Lutero escreveu a "Carta aos Príncipes da Saxônia sobre o
Espírito Revoltoso", mostrando a tirania dos nobres que oprimiam o povo e
a loucura dos camponeses em reagir através da força e a confiar em Müntzer como
pregador. Houve pouca repercussão sobre esse escrito.
Ainda em 1524,
Müntzer mudou-se para a cidade imperial de Mühlhausen, oferecendo-se como
pregador. Lutero escreveu a "Carta Aberta aos Burgomestres, Conselho e
toda a Comunidade da Cidade de Mühlhausen", com o propósito de alertar
sobre as intenções de Müntzer. Também esse escrito não teve repercussão, pois o
conselho da cidade se limitou a pedir informações sobre Müntzer na cidade
imperial de Weimar.
O principal
escrito dos camponeses eram os "Doze Artigos", onde suas
reivindicações eram expostas. Neles havia artigos de fundo teológico (direito
de ouvir o Evangelho através de pregadores chamados por eles próprios) e
artigos que tratavam dos maus tratos (exploração nos impostos, etc.) impostos a
eles pelos nobres. Os artigos eram fundamentados com passagens bíblicas e
dizia-se que se alguém pudesse provar pelas Escrituras que aquelas
reivindicações eram injustas, eles as abandonariam. Entre aqueles que se
consideravam dignos de fazer tal coisa estava o nome de Martinho Lutero.
De fato, Lutero
escreveu sobre os "Doze artigos" em seu livro "Exortação à Paz:
Resposta aos Doze artigos do Campesinato da Suábia", de 1525. Nele, Lutero
ataca os príncipes e senhores por cometerem injustiças contra os camponeses e ataca
os camponeses pela rebelião e desrespeito à autoridade.
Também esse
escrito não teve repercussão e, durante uma viagem pela região da Turíngia,
Lutero pôde testemunhar as revoltas camponesas, o que o motivou a escrever o
"Adendo: Contra as Hordas Salteadoras e Assassinas dos Camponeses",
onde disse: "Contras as hordas de camponeses (…), quem puder que bata,
mate ou fira, secreta ou abertamente, relembrando que não há nada mais
peçonhento, prejudicial e demoníaco que um rebelde". Tratava-se de um
apêndice de "Exortação à Paz …", mas que, rapidamente, tornou-se um
livro separado. O Adendo foi publicado quando a revolta camponesa já estava no
final e os príncipes cometiam atrocidades contra os camponeses derrotados, de
modo que o escrito causou grande revolta da opinião pública contra Lutero.
Nele, Lutero encorajava os príncipes a castigarem os camponeses até mesmo com a
morte.
Essa repercussão
negativa obrigou Lutero a pregar um sermão no dia de pentecostes, em 1525, que
se tornou o livro "Posicionamento do Dr. Martinho Lutero Sobre o Livrinho
Contra os Camponeses Assaltantes e Assassinos", onde o reformador contesta
os críticos e reafirma sua posição anterior.
Como ainda havia
repercussão negativa, Lutero novamente se posicionou sobre a questão no seu
"Carta Aberta a Respeito do Rigoroso Livrinho Contra os Camponeses",
onde lamenta e exorta contra a crueldade que estava sendo praticada pelos
príncipes, mas reafirma sua posição anterior.
Por fim, a
pedido de um amigo, o cavaleiro Assa von Kram, Lutero redigiu "Acerca da
Questão, Se Também Militares Ocupam uma Função Bem-Aventurada", em 1526,
com o propósito de esclarecer questões sobre consciência do cristão em caso de
guerra e sua função como militar.
A DISCORDÂNCIA COM JOÃO CALVINO
No movimento
reformista (também chamado de Reforma), Lutero não concordou como o
"estilo" de reforma de João Calvino. Martinho Lutero queria reformar
a Igreja Católica, enquanto João Calvino, acreditava que a Igreja estava tão
degenerada, que não havia como reformá-la. Calvino se propunha a organizar uma
nova Igreja que, na sua doutrina (e também em alguns costumes), seria idêntica
à Igreja Primitiva. Já Lutero decidiu reformá-la, fundando, então, o
Protestantismo, que não seguia tradições, mas apenas a doutrina registrada na
Bíblia, e cujos usos e costumes não ficariam presos a convenções ou épocas. A
doutrina luterana está explicitada no "Livro de Concórdia", e não
muda, embora os costumes e formas variem de acordo com a localidade e a época.
OBRAS IMPORTANTES
Foi o autor de
uma das primeiras traduções da Bíblia para alemão, algo que, naquela época, não
era permitido pela Igreja católica sem especial autorização eclesiástica.
Lutero, contudo, não foi o primeiro tradutor da Bíblia para alemão. Já havia
traduções mais antigas. A tradução de Lutero, no entanto, suplantou as
anteriores porque, além da qualidade da tradução, foi amplamente divulgada em
decorrência da sua difusão por meio da imprensa, desenvolvida por Gutenberg, em
1453.
O latim, língua
do extinto Império Romano, permanecia a língua franca européia, imediatamente
conotada com o passado romano glorioso, uma era de ciência, de progresso
econômico e civilizacional, sendo também a língua dos textos sagrados, tal como
tinham sido transmitidos às províncias do Império. Por mais longínquas que
fossem, nos menos de cem anos que separam a oficialização da religião cristã
pelo Imperador Romano Teodósio I em 380 d.C. e a deposição do último imperador
de Roma pelo Germânico Odoacro, em 476 d.C. (data avançada por Edward Gibbon e
convencionalmente aceita como ano da queda do Império Romano do Ocidente), toda
a região, de forma mais ou menos homogênea, se cristianizou. O fim da
perseguição à religião cristã pelo império romano se deu em 313 d.C. (Ver:
Édito de Milão, Concílio de Niceia, Constantino I, A história do declínio e
queda do império romano, Santo Jerónimo).
No entanto, o
domínio do latim era, no século XVI, no fim da Idade Média (terminada
oficialmente em 1453, com a tomada de Constantinopla pelos Otomanos) e
princípio da chamada Idade Moderna, apenas o privilégio de uma percentagem
ínfima de população instruída, entre os quais os elementos da própria Igreja. A
tradução de Lutero para o alemão foi simultaneamente um ato de desobediência e
um pilar da sistematização do que viria a ser a língua alemã, até aí vista como
uma língua inferior, dos servos e ignorantes. É preciso adicionar que Lutero
não se opunha ao latim, e chegou mesmo a publicar uma edição revisada da
tradução latina da Bíblia (Vulgata). Lutero escrevia tanto em latim como em alemão.
A tradução da Bíblia para o alemão não significou, portanto, rejeição do latim
como língua acadêmica.
Foi também autor
da polêmica obra "Sobre os judeus e suas mentiras". Pouco conhecida,
mas muito apreciada pelo próprio Lutero, foi sua resposta a "Diatribe"
de Erasmo de Roterdã intitulada De servo arbitrio (Título da publicação em
português: Da vontade cativa).
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